Itabuna voltou a ocupar o lugar de polo estratégico na disputa por representação política no Sul da Bahia. A movimentação envolve as corridas pelo Governo do Estado, Senado, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa, além da busca de grupos locais por influência em decisões estaduais e federais.
Cabe uma correção temporal importante: 2026 é ano de eleições gerais, não municipais. Em 4 de outubro, o eleitor escolherá presidente, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual. Um eventual segundo turno para presidente e governador ocorrerá em 25 de outubro. Prefeito e vereadores voltarão às urnas somente em 2028.
A eleição geral atravessa diretamente Itabuna porque define quem representará a região em Salvador e Brasília e como demandas locais — saúde, emprego, cacau, mobilidade e desenvolvimento urbano — entrarão nas prioridades dos próximos quatro anos.
Uma disputa estadualizada, mas com consequências locais
A corrida pelo Governo da Bahia concentra as atenções entre o governador Jerônimo Rodrigues, do PT, e ACM Neto, do União Brasil. As pesquisas divulgadas ao longo do ano indicaram uma disputa apertada, com oscilações e cenários de empate técnico.
Levantamento AtlasIntel divulgado em 3 de setembro apresentou ACM Neto com 53,2% e Jerônimo com 46,1% em um recorte que reuniu Santo Antônio de Jesus e o eixo Ilhéus-Itabuna. O dado não é uma pesquisa exclusiva de Itabuna e não possui margem de erro específica para o município. No agregado estadual, a diferença caiu para 49,1% a 47,9%.
No fim de agosto, a Quaest mostrou Neto com 39% e Jerônimo com 37% no primeiro turno. Na simulação de segundo turno, o placar foi de 44% a 41%, dentro da margem de erro. Questionamentos públicos e judiciais sobre metodologias e financiamento de levantamentos reforçam a necessidade de cautela. A fotografia disponível sugere competitividade, não resultado antecipado.
O PT associa a campanha à força do presidente Lula e às entregas conjuntas dos governos federal, estadual e municipal. Neto reorganiza a oposição em torno de temas como saúde, segurança e avaliação da gestão estadual. No recorte regional em que ele liderou para governador, Lula registrou 49,1% na disputa presidencial, indicando que o eleitor pode separar escolhas nacionais e estaduais.
PSD administra Itabuna e ocupa posição estratégica
O prefeito Augusto Castro, do PSD, mantém alinhamento administrativo com o governo de Jerônimo Rodrigues. A gestão apresenta essa relação como caminho para viabilizar obras e serviços de saúde, abastecimento e infraestrutura.
Liderado na Bahia por Otto Alencar, o PSD integra a base estadual governista, mas convive com movimentos autônomos de lideranças municipais e disputas por espaço eleitoral. As articulações para o Senado envolvendo Rui Costa e Angelo Coronel expuseram tensões no campo aliado. Em Itabuna, o partido tenta converter entregas administrativas em confiança política sem confundir governo com campanha, enquanto a oposição precisa oferecer avaliação que vá além da rejeição ao governismo.
No União Brasil, a reaproximação entre ACM Neto e o ex-prefeito Capitão Azevedo foi apresentada por veículos regionais como parte da reconstrução oposicionista. Eles haviam se afastado na eleição municipal de 2024, quando Neto apoiou Fabrício Pancadinha, do Solidariedade. Em 2026, Azevedo voltou a participar de atos do grupo, inclusive da abertura de um comitê em Itabuna.
A reorganização de divergências municipais segundo a lógica estadual não representa, por si só, aliança definitiva para 2028. Tampouco permite tratar nomes articulados para cargos proporcionais como eleitos antecipadamente. Mesmo após convenções e pedidos de registro, a confirmação formal das candidaturas depende das informações da Justiça Eleitoral.
Câmara suspende sessões, mas administração continua
Em 10 de setembro, a Câmara de Vereadores de Itabuna adotou regras de neutralidade institucional para o período eleitoral. Segundo a Casa, sessões plenárias e reuniões de comissões foram suspensas até 25 de outubro, mas os setores administrativos continuaram funcionando.
A medida interrompe temporariamente votações, deliberações e parte da tramitação política ordinária. Não equivale ao fechamento da Câmara nem impede atendimento, transparência, ações educativas ou debates públicos sem votação legislativa.
Antes da suspensão, uma sessão de 1º de setembro presidida pelo vereador Bruno Bileco tratou de infraestrutura, desenvolvimento urbano e segurança, além de votar um veto parcial. Em 15 de setembro, a Câmara promoveu audiência pública sobre mudanças na Lei Orgânica Municipal, ambiente de negócios, atração de empresas e geração de emprego e renda. A Escola do Legislativo Professor Edmundo Dourado também manteve o Cine Câmara como ação educativa, não deliberativa.
A Casa afirma preservar os canais de transparência sobre receitas, despesas, pessoal e processo legislativo. Com orçamento anual previsto de R$ 31,2 milhões em 2026, a publicidade dos atos ganha relevância durante uma campanha na qual vereadores podem atuar politicamente fora da estrutura institucional.
Emprego precisa sair do discurso genérico
Itabuna exerce função regional no comércio, nos serviços, na saúde e na logística, mas os números recentes mostram que geração de vagas exige análise cuidadosa.
Em abril de 2026, o município teve saldo positivo de apenas 28 empregos formais, resultado de 1.253 admissões e 1.225 desligamentos. A indústria abriu 111 postos e a construção civil, 25. Em sentido contrário, o comércio perdeu 98 vagas, os serviços tiveram redução de oito postos e a agropecuária, de dois.
No período de 12 meses encerrado em abril, o estoque informado pelo Novo Caged era de 36.426 vínculos formais. O resultado mensal positivo não elimina a fragilidade de setores importantes para a cidade, especialmente comércio e serviços.
A eleição proporcional deveria responder a uma questão concreta: quais propostas os candidatos a deputado federal e estadual apresentam para formação profissional, crédito, atração de investimentos e integração econômica entre Itabuna, Ilhéus e os demais municípios do território?
Cacau e chocolate exigem representação regional
A agenda do cacau permanece central para o Sul da Bahia, mesmo em uma cidade cuja economia urbana depende fortemente de comércio e serviços. O desafio não é apenas produzir amêndoas, mas ampliar beneficiamento, qualidade, industrialização e comercialização de chocolates com maior valor agregado.
Em 2026, produtores enfrentam volatilidade de preços e manifestam preocupação com a importação de cacau africano e com os controles fitossanitários. Ao mesmo tempo, iniciativas como o Plano Inova Cacau 2030 colocam em debate produtividade, sustentabilidade, resistência climática, assistência técnica e defesa contra doenças como a monilíase.
Também foram apresentadas propostas para retomar operações de exportação de cacau pelo Porto de Ilhéus, instalar no Sul da Bahia um armazém com capacidade para 30 mil sacas e fortalecer o cooperativismo. São propostas em discussão, não obras ou políticas concluídas.
Para o eleitor grapiúna, a cobrança deve alcançar candidatos ao Senado, à Câmara e à Assembleia: como cada um pretende defender pequenos produtores, pesquisa agrícola, cacau de qualidade, chocolate regional, sistema cabruca e segurança fitossanitária?
Saúde e infraestrutura serão testadas pela entrega
O Hospital de Base Luís Eduardo Magalhães resume a dimensão regional de Itabuna. Em 25 de junho, a unidade inaugurou um ambulatório climatizado, com 13 consultórios especializados e duas salas para pequenos procedimentos. A reforma mais ampla, realizada em parceria entre Estado e município, foi informada como superior a R$ 80 milhões, incluindo ampliação de leitos de UTI, novas salas cirúrgicas e modernização de setores de diagnóstico.
O hospital atende municípios pactuados e recebe pacientes de dezenas de cidades do Sul e Sudoeste. Por isso, a discussão não pode ficar limitada à inauguração de estruturas: deve incluir financiamento contínuo, pessoal, equipamentos, filas e capacidade efetiva de atendimento.
Na infraestrutura, diferentes relatos descrevem a BA-649 de formas distintas. Uma fonte aponta a inauguração da primeira etapa da ligação entre Itabuna e Ilhéus, enquanto outras tratam a obra como ainda em andamento. Diante dessa divergência, a posição responsável é cobrar cronograma oficial, trechos efetivamente entregues e impacto real sobre o transporte de pessoas e mercadorias.
Projetos como o Mais Água, a Nova Feira do São Caetano e intervenções de pavimentação também devem ser avaliados por execução, qualidade e alcance, não apenas pelo anúncio.
O voto regional precisa produzir compromisso
A campanha de 2026 confirma que Itabuna voltou a ser disputada como polo de votos, alianças e representação. PT, PSD, União Brasil e outras siglas buscam associar lideranças locais a projetos estaduais e nacionais. O eleitor, porém, não precisa aceitar essa conexão de forma automática.
A pergunta decisiva é simples: quem apresenta compromissos verificáveis com emprego, saúde regional, cacau e chocolate, mobilidade, abastecimento e desenvolvimento urbano? Quem explica como pretende financiar suas propostas? E quem continuará prestando contas depois de outubro?
Itabuna pode oferecer votos. O que precisa exigir em troca é representação pública responsável — em Salvador, em Brasília e também dentro de casa.
