OPINIÃO: O Brasil do futuro chegou. Mas quem vai ficar com a riqueza desse país?

Cresci ouvindo que o Brasil era o país do futuro. Pois bem, o futuro chegou. E, pelo visto, tem muita gente de olho.

Eu poderia falar sobre mobilização política, ou sobre o fim da escala 6×1 ou até sobre inteligência artificial e a corrida mundial pelos chips. Mas, depois de assistir ao episódio de Wagner Moura na série Revelando, sobre as terras raras brasileiras, fica difícil tratar esses assuntos como se não estivessem conectados.

Vamos começar pelo básico: o que são terras raras?

São 17 elementos essenciais para tecnologias modernas, utilizados na fabricação de ímãs de alta performance, equipamentos eletrônicos, motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas militares. Em outras palavras, são parte da infraestrutura material do futuro.

E o Brasil tem reservas e potencial geológico importantes.

Agora, entenda o tamanho dessa oportunidade: enquanto o mundo disputa o controle das tecnologias que vão movimentar a economia nas próximas décadas, nós temos recursos fundamentais para essa transformação. Só que existe uma diferença entre possuir a matéria-prima e dominar a tecnologia que a transforma em riqueza.

O Brasil produziu 326 toneladas de concentrado de óxidos de terras raras em 2025. No mesmo período, exportou US$ 14,9 milhões em concentrados e importou US$ 30,6 milhões em produtos transformados dessa indústria, incluindo óxidos e ímãs. O retrato é claro: temos recursos no subsolo, mas ainda precisamos avançar na cadeia industrial.

E é aqui que a conversa fica interessante.

O filho de Donald Trump, Donald Trump Jr., aparece ligado a um fundo investidor de uma empresa americana que busca participar da cadeia de fornecimento de terras raras na Bahia e em Minas Gerais. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o projeto brasileiro enviou amostras para testes à empresa que pretende abastecer uma fábrica de ímãs nos Estados Unidos.

Em março, Flávio Bolsonaro afirmou, nos Estados Unidos, que o Brasil poderia ser a solução da américa para reduzir a dependência americana da China em minerais críticos. Em maio, declarou que, se eleito presidente, buscaria parcerias estratégicas de longo prazo com os americanos nesse setor.

Parcerias internacionais não são, por si só, um problema. Investimentos estrangeiros podem gerar empregos, ampliar a produção e trazer conhecimento. A questão é outra: quais serão as condições do negócio, quem controlará as etapas mais valiosas e quanto dessa riqueza ficará no Brasil?

Porque chamar isso de parceria não responde a todas as perguntas. Contrato assinado não é sinônimo automático de desenvolvimento nacional. E bandeira americana em uma apresentação de negócios não transforma interesse estrangeiro em interesse brasileiro por decreto.

Aliás, existe uma ironia nessa história: passamos décadas ouvindo que o Brasil precisava deixar de ser apenas exportador de commodities. Agora, quando os minerais que alimentam a indústria tecnológica mundial entram no centro da disputa geopolítica, corremos o risco de repetir a velha fórmula, só que com nomes mais sofisticados e apresentações em inglês.

É o colonialismo com vocabulário de inovação? Essa é uma pergunta que merece debate, não um veredito antecipado. O que precisa ser examinado são os contratos, as garantias, a transferência de tecnologia e os benefícios concretos para a população.

E, quando alguém disser que precisamos entregar nossas riquezas para garantir investimentos, vale perguntar: investimento para quem? Desenvolvimento de quem? E o futuro de quem?

Cresci ouvindo que o Brasil era o país do futuro.

O futuro chegou. Os minerais estão aqui. A disputa já começou.

Só falta responder à pergunta que realmente importa: vamos participar da construção desse futuro ou apenas fornecer a matéria-prima para que outros fiquem com a melhor parte?

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