O segundo turno das eleições no Brasil influenciou como nunca a disputa nas redes sociais. Candidatos ampliam a mobilização digital e disputam a atenção dos eleitores numa campanha marcada pela velocidade da informação, pela polarização e pela circulação de conteúdos produzidos ou manipulados com inteligência artificial. Mas o uso do ‘Exército de Lula’ e a ‘Tropa do Flávio’ evidenciam algo maior: as redes já não são apenas ferramentas de comunicação política, mas espaços de disputa social.
A internet está se consolidando como um novo campo nas relações pessoais, nos vínculos afetivos e na maneira como construímos nossa percepção da realidade. Nossas identidades, conflitos e relações com seus equivalentes no ciberespaço.
Essa transformação pode ser compreendida a partir do pensamento do sociólogo Manuel Castells, em A Sociedade em Rede (1996), obra na qual analisa como as redes de informação reorganizam a economia, a política, a cultura e as relações sociais. Nessa perspectiva, o poder também está relacionado à capacidade de produzir, controlar e fazer circular informações.
A combinação entre inteligência artificial e redes sociais pode aprofundar uma crise de confiança. Quando imagens, vídeos, vozes e até interações humanas podem ser simulados com crescente precisão, distinguir o real do artificial se torna um desafio. O risco não é apenas acreditar em uma mentira, mas chegar ao ponto de desconfiar da própria verdade.
Nesse cenário, o enfraquecimento das estruturas econômicas e sociais atuais pode abrir espaço para novas formas de organização do poder, como o tecnofeudalismo, conceito utilizado por alguns pensadores para descrever uma economia em que grandes plataformas digitais concentram recursos, infraestrutura e controle sobre os ambientes onde a vida acontece.
Assim como os camponeses dependiam dos proprietários de terras, usuários, trabalhadores e empresas passam a depender de plataformas privadas para produzir, trabalhar, consumir e se relacionar. A diferença é que, agora, o território também é digital, e a dependência pode ser alimentada pela coleta de dados, pela monetização da atenção e pelo controle dos algoritmos.
Realizamos microtrabalhos em aplicativos, produzimos conteúdo, alimentamos sistemas de inteligência artificial e geramos dados que ajudam a prever nosso comportamento de consumo. Em muitos casos, somos simultaneamente trabalhadores, consumidores e fontes de informação para as mesmas empresas.
Enquanto isso, os pagamentos digitais avançam e o dinheiro físico perde espaço em determinadas transações. A moeda se torna cada vez mais integrada aos sistemas tecnológicos que organizam nossa vida cotidiana.
A questão, portanto, vai além da tecnologia. É sobre quem controla as plataformas, quem detém os dados, quem define as regras e quem se beneficia do valor produzido por bilhões de pessoas conectadas.
Se nossas relações, nosso trabalho, nosso dinheiro e até nossa percepção da realidade dependem cada vez mais de plataformas privadas, estaremos construindo uma sociedade mais livre ou apenas mudando os senhores e os territórios de um novo sistema de dependência?
Andreyver Lima é jornalista, analista político e especialista em comunicação pública.