Por Andreyver Lima
O sequestro em Ilhéus, ocorrido em 6 de outubro de 2025, revelou como as tragédias, em plena era digital, se transformam em espetáculo ao vivo. Um homem invadiu uma casa no conjunto Morada do Porto, manteve uma mulher e criança como reféns e transmitiu toda a ação pelas redes sociais da vítima. O caso mobilizou a polícia e dominou as redes sociais, virando manchete em poucos minutos.
Enquanto o drama acontecia, vizinhos gravavam vídeos, emissoras corriam para noticiar e transmitir cada detalhe. O sequestro rapidamente deixou de ser apenas um fato policial, tornando-se um case midiático que escancarou os sinais dos tempos: a era em que o crime se transforma em conteúdo.
A transmissão ao vivo do medo
A todo momento, o sequestrador reiniciava a live e afirmava que “preferia morrer a voltar para a cadeia”, além de exigir um carro para fugir. A polícia cercou o local e, após três horas de negociação, mãe e filha foram libertadas. Mas, nesse intervalo, as redes sociais se tornaram um espetáculo digital de apreensão e angustia. A casa cercada era acompanhada em tempo real por celulares, lives e stories.
O site A Região foi direto ao ponto: “O sequestro virou atração no Instagram.” Essa frase sintetiza o fenômeno. A tragédia foi consumida como entretenimento. O pânico se tornou conteúdo, e a dor, engajamento.
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O papel da imprensa e das redes sociais
Casos como esse colocam à prova o comportamento da imprensa nas plataformas digitais. A ânsia por visibilidade e “exclusividade” cria uma linha tênue entre informar e explorar.
Um exemplo foi o jornalista Oziel Aragão, do portal OZITV, que cobriu o caso com apuração, unindo velocidade, ética e compromisso com os fatos, algo raro num ambiente cada vez mais dominado por sensacionalismo. É uma postura que contrasta com o comportamento de muitos perfis. Ao agir com responsabilidade, reafirma o papel essencial do jornalismo profissional: informar sem explorar.
Quando o crime vira conteúdo
Uma dinâmica perversa da comunicação digital contemporânea, reforça o espetáculo da violência e cria incentivos para novos comportamentos de risco.
Enquanto isso, as plataformas multiplicam os vídeos e o público consome tudo com curiosidade, sem perceber que também está participando do show. A notícia, que deveria ser uma ferramenta de entendimento do caso, vira combustível para o caos.
Somente com o jornalismo responsável, é possível equilibrar rapidez e ética. Acompanhar, sem espetacularizar, pois o próximo episódio não será exceção, mas rotina.
