Mais uma vez o Hospital de Base Luís Eduardo Magalhães volta ao centro do debate político regional. E, tratando-se de uma referência para dezenas de municípios do sul da Bahia, a discussão naturalmente ganha proporções ainda maiores, sobretudo em um ambiente pré-eleitoral e amplificado pelas redes sociais.
No passado, a unidade chegou a carregar o estigma de “Hospital da Morte”, expressão que marcou períodos de forte crise. Hoje, porém, a realidade apresenta um hospital de fluxo intenso, responsável por milhares de atendimentos mensais, funcionando como porta aberta regional do SUS.
Segundo dados divulgados pela direção do Hospital de Base e pela Prefeitura de Itabuna, a unidade realizou 12.120 atendimentos, 1.131 internações, 44.123 exames e 548 cirurgias apenas no primeiro bimestre de 2025. Já nos primeiros 15 dias de outubro do mesmo ano, o hospital contabilizou 4.086 atendimentos, 369 internações e 14.242 exames laboratoriais, reforçando o papel da unidade como referência regional no atendimento 100% SUS.
Dados recentes do Ministério da Saúde colocam o Hospital de Base Luís Eduardo Magalhães entre os 20 hospitais da Bahia com maior volume de internações pelo SUS. Segundo levantamento, a unidade ocupa a 17ª posição entre os 470 hospitais baianos que prestam serviços ao Sistema Único de Saúde e aparece como o segundo hospital com maior volume de internações da macrorregião sul do estado. A estrutura atende cerca de 22 municípios pactuados, alcançando uma população estimada em mais de 500 mil pessoas.
Mas a morte do jovem Igor Ferreira, ocorrida no dia 25 de abril de 2026, sob suspeita de negligência hospitalar, recolocou o “Base” no epicentro de mais uma guerra de narrativas.
O caso rapidamente passou a ocupar espaço central no debate político local.
O deputado estadual Diego Castro divulgou vídeos nas redes sociais denunciando problemas estruturais, dificuldades no atendimento e suposta falta de medicamentos na unidade hospitalar. Segundo o parlamentar, a situação encontrada durante fiscalização seria “grave”.
As declarações provocaram forte repercussão política e institucional.
Na terça-feira (5), a Câmara Municipal de Itabuna trouxe o tema como um dos principais debates da sessão plenária. O debate expôs uma preocupação comum entre os parlamentares: a sobrecarga estrutural enfrentada pelo Hospital de Base.
Durante a sessão, vereadores destacaram que o hospital, embora municipal, atende demandas de toda a região sul da Bahia. Parlamentares também discutiram questões relacionadas à regulação do SUS, ao fluxo de pacientes vindos de municípios pactuados e aos custos elevados de manutenção da unidade.
Parlamentares ainda alertaram para o risco de transformar a crise em espetáculo político, sobretudo diante da relevância regional do hospital.
Já na quarta-feira (6), a gestão do Hospital de Base respondeu oficialmente às críticas do deputado estadual.
Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, o auditor e médico, Cristiano Conrado, classificou a postura do parlamentar como sensacionalista, irresponsável e tecnicamente despreparada.
Entre os principais pontos abordados pela direção do hospital esteve a discussão sobre protocolos médicos relacionados ao tratamento de AVC. O auditor explicou que o Hospital de Base não possui habilitação específica para trombólise em AVC, apenas para determinados procedimentos ligados ao infarto, e criticou o que chamou de desconhecimento técnico sobre os protocolos do SUS.
A gestão também rebateu acusações de abandono estrutural, destacando investimentos recentes realizados na unidade e afirmando que o hospital possui custo operacional mensal estimado em cerca de R$ 10 milhões, com participação financeira do município e do Governo do Estado.
Outro ponto de forte repercussão foi a discussão sobre os limites da fiscalização parlamentar dentro de áreas assistenciais. Segundo a direção, embora deputados possuam prerrogativa fiscalizatória, não podem expor pacientes, constranger profissionais ou acessar determinados ambientes sem observar normas relacionadas ao sigilo médico e à segurança hospitalar.
O auditor também respondeu críticas relacionadas aos cuidados prestados a pacientes com AVC, afirmando que procedimentos como banho no leito seguem protocolos clínicos específicos para pacientes com mobilidade reduzida.
A direção do hospital afirmou estar aberta ao diálogo institucional e à construção de melhorias estruturais, mas criticou o uso político do ambiente hospitalar nas redes sociais.
No centro dessa disputa permanece a população. O Hospital de Base continua sendo uma das estruturas mais importantes para milhares de famílias do sul da Bahia. E talvez esse seja o principal desafio do momento: separar o debate sobre falhas e responsabilidades do uso do sofrimento humano como combustível político.