O Ita Pedro e o Soft Power de Itabuna: quando a cultura se transforma em ativo estratégico de imagem

Durante muito tempo, Itabuna foi reconhecida por sua força econômica, pelo comércio pujante e pela história construída em torno do cacau. Essa identidade permanece viva e continuará sendo parte do DNA grapiúna. Mas as cidades, assim como as sociedades, evoluem. Elas precisam construir novas narrativas para permanecer relevantes.

É justamente nesse contexto que o Ita Pedro deixa de ser apenas uma grande festa para se tornar um fenômeno de comunicação e de projeção territorial.

Na Ciência Política existe um conceito criado pelo professor Joseph Nye, da Universidade de Harvard, chamado soft power. Em tradução livre, trata-se do “poder da atração”: a capacidade de influenciar pessoas, instituições e territórios não pela força ou pela imposição, mas pela cultura, pela reputação e pela capacidade de despertar admiração.

Embora o conceito tenha sido pensado para as relações internacionais, ele se aplica perfeitamente às cidades que conseguem transformar sua identidade em um ativo estratégico.

É exatamente isso que acontece com Itabuna.

O Ita Pedro produz algo que vai muito além dos números de público, da grade de atrações ou da movimentação econômica. Ele altera a forma como a cidade passa a ser percebida por quem vive aqui e, principalmente, por quem vem de fora.

Essa mudança de percepção possui um valor enorme.

Enquanto muitos municípios disputam investimentos apenas oferecendo incentivos fiscais, Itabuna fortalece um patrimônio muito mais difícil de construir: reputação.

Uma cidade admirada torna-se naturalmente mais atrativa para investimentos, turismo, realização de eventos, novos negócios e circulação de pessoas. A economia, nesse caso, passa a ser consequência da imagem construída.

Os impactos financeiros do Ita Pedro são evidentes. Mas existe um patrimônio ainda mais valioso do que o dinheiro que circula durante a festa: o capital simbólico.

Cada vídeo publicado nas redes sociais e cada reportagem exibida na televisão, visitante que retorna para casa falando bem da cidade, transforma-se em uma poderosa campanha espontânea de promoção da cidade.

É aí que reside o verdadeiro soft power.

O visitante deixa de consumir apenas um evento. Ele consome uma experiência.

Há ainda um efeito pouco discutido, mas extremamente importante: o fortalecimento da autoestima coletiva.

Durante décadas, Itabuna esteve frequentemente associado a noticias negativas. O Ita Pedro ajuda a construir uma narrativa diferente. Ele faz com que o próprio itabunense olhe para sua cidade com mais orgulho.

Uma cidade que aprende a acreditar em si mesma transmite confiança para quem está fora.

Milhares de pessoas chegam de dezenas de municípios do Sul, Extremo Sul e Sudoeste da Bahia. Prefeitos, vereadores, empresários, artistas e lideranças políticas circulam pela cidade durante os dias da festa.

Sem perceber, Itabuna amplia sua influência regional, não apenas como centro comercial, mas como referência cultural e uma cidade capaz de organizar grandes eventos.

Estamos diante de uma política de construção de imagem da cidade.

Em um mundo cada vez mais conectado, onde as cidades competem por investimentos, turistas, talentos e oportunidades, a reputação tornou-se um ativo econômico.

Nesse aspecto, o Ita Pedro já ultrapassou a condição de festa popular. Transformou-se em uma ferramenta de soft power.


Andreyver Lima é jornalista, analista político e especialista em comunicação pública. Foto: Pedro Augusto
Compartilhe isso:

Deixe um comentário